Deixe-me dizer uma coisa. Em todos os meus anos na estrada, a maior mudança que vi não foram caminhões melhores. Foi a forma como as cargas são atribuídas. Antes era um telefonema: “Zhao, tenho uma carga, doze paletes saindo de Fontana, esteja lá às sete da manhã”. Duas frases, e você sabia exatamente o que fazer. Hoje em dia? Meu telefone vibra, e o despacho automático de TMS já decidiu tudo: rota, horário, porta de doca. Parece ótimo no papel. Mas eu digo: quando isso dá errado, quem paga é o motorista.

Há alguns outonos, aceitei uma carga despachada pelo sistema perto de Ontario. O embarcador importava artigos para o lar, e o despacho automático de TMS me planejou uma “rota mais curta”: sair da 10, atravessar uma área industrial em Fontana, direto para o portão do armazém. Algo me pareceu errado assim que a vi. Eu já tinha percorrido aquela estrada uma década antes, e sabia que caminhões eram restritos ali durante o dia. Liguei para o despacho. Disseram: “O sistema enviou, deve estar tudo bem, vá dar uma olhada”. No meio do caminho, um policial de trânsito me parou. Tive que voltar, perdi mais de meia hora e quase perdi meu compromisso de descarga. Naquele dia aprendi a lição: o despacho automático de TMS calcula a rota mais curta no mapa, não a melhor rota na estrada.

Três vezes em que o despacho automático falhou

Primeiro, o sistema não conhece as estradas restritas. Os aplicativos de navegação conhecem os limites de altura e peso. Mas muitos módulos de despacho de TMS nunca conectaram esses dados. Eles só se importam com a menor distância e o menor tempo. Um motorista segue a rota do sistema, entra numa zona restrita a caminhões, e o motorista leva a multa enquanto a carga do embarcador chega atrasada. Já vivi isso mais de uma vez. No sul da Califórnia, cada cidade tem suas próprias regras para caminhões, e se o sistema não mantiver esses dados atualizados, cada despacho é um palpite.

Segundo, o sistema nunca deixa um homem comer. Uma vez o sistema encadeou duas cargas em sequência. Descarregar a primeira, e a janela de coleta da segunda vinha logo atrás, quase sem intervalo. Digo a vocês: entrei num ponto de descanso querendo uma refeição quente, e o sistema começou a me sinalizar em amarelo, me empurrando para seguir. O homem é ferro, o arroz é aço, como diz o velho ditado. O sistema não se importa. Ele trata os motoristas como peças numa linha de montagem: um passo termina, o próximo deve começar na hora. Quando um despachante humano atribuía as cargas, ele dava uma olhada e dizia: “Zhao acabou de terminar essa viagem, dê um respiro a ele, empurre a próxima meia hora”. Essa meia hora mantém o motorista aquecido por dentro, e mantém a estrada mais segura.

Terceiro, na alta temporada o sistema só confia na distância, nunca no conhecimento local. Todo fim de ano, as rodovias ao redor dos portos de Los Angeles viram estacionamentos. O sistema me despachou para uma rota “mais curta” pela 60. Depois de quinze anos por aqui, um olhar bastou para saber que aquela estrada estaria totalmente travada depois das dez da manhã. A outra rota parecia dezenas de milhas mais longa no papel, mas fluía livremente, e a viagem total foi na verdade mais rápida. O sistema não tem essa memória na cabeça. Ele só conta milhas. Fui do meu jeito e cheguei na hora. Mais tarde o despachante me disse que outros dois motoristas que seguiram a rota do sistema chegaram atrasados.

O que os despachantes manuais sabem e o TMS não sabe

Conversei com muitos despachantes veteranos. A maior dor de cabeça deles hoje é revisar a olho cada carga despachada pelo sistema. Por quê? Porque há coisas neste negócio que simplesmente não podem ser aprendidas por software.

Pense nos armazéns. Há um em Ontario com compromisso às dez, mas a equipe de empilhadeiras aparecer ao meio-dia é simplesmente o normal por lá. Os despachantes veteranos sabem disso, e deixam folga em qualquer carga que vá para lá. O sistema só lê a hora do compromisso. Ou pense nas transportadoras: quais motoristas são confiáveis, quais novatos se perdem nos portões do porto. Todo esse “livro de pessoas” vive na cabeça de um despachante veterano, não em nenhum banco de dados.

Digo a vocês: o verdadeiro valor do despacho manual é absorver a incerteza antes que ela chegue à estrada. O despacho automático calcula para condições ideais. Mas no transporte rodoviário, quando um dia é ideal? Clima, trânsito, pessoal do armazém, condição do motorista, as variáveis são infinitas. Um despachante experiente carrega essas variáveis na cabeça ao atribuir uma carga, e suas cargas simplesmente falham com menos frequência.

Uma opinião contraintuitiva: quanto mais “perfeito” o despacho, menos os motoristas o querem

Isso pode ofender o pessoal de software, mas precisa ser dito. Algumas configurações de despacho automático de TMS otimizam demais: menos milhas, menos retorno vazio, conexões mais apertadas. Lindo numa planilha, e os motoristas balançam a cabeça. Por quê? Porque espremem o dia do motorista até o limite, sem folga em lugar nenhum.

Neste negócio, os motoristas escolhem continuar rodando para embarcadores “sólidos”. O que torna um embarcador sólido? Despacho razoável, horários humanos e assumir os problemas em vez de jogá-los no motorista. Se o despacho automático só persegue os números, os motoristas percebem depois de duas viagens: essa conta parece bom dinheiro, mas acaba com você. Da próxima vez que a carga aparecer, o motorista arranja uma desculpa para passar. Cada milha economizada pelo sistema volta como uma carga que ninguém quer transportar. Os embarcadores precisam fazer essa conta.

Quando deixar o despacho automático decidir, e quando um humano precisa olhar

Depois de todos esses anos, sempre volto a uma regra simples: deixe o despacho automático de TMS cuidar do padrão, deixe as pessoas cuidarem das exceções. Esta é a tabela que dou a embarcadores e amigos de armazém:

Tipo de carga Como despachar Por quê
Rotas fixas que você percorre várias vezes Deixe o sistema Rota madura, poucas variáveis, a conta fecha
Transportadoras de longa data que você conhece bem Deixe o sistema Os dois lados já estão entrosados, o despacho automático é eficiente
Carga paletizada padrão, nada de especial Deixe o sistema Carga e descarga simples, poucas surpresas
Carga superdimensionada ou de formato irregular Humano precisa revisar É preciso confirmar equipamento, rota e autorizações; o sistema não consegue pensar em tudo
Rotas por áreas restritas ou de baixa altura livre Humano precisa revisar Os dados do sistema estão incompletos; uma checagem humana é um seguro de verdade
Primeira carga com uma transportadora nova Humano precisa revisar Pegue o telefone e confirme; não jogue simplesmente no sistema
Alta temporada ou mau tempo Humano precisa revisar Variáveis demais na estrada; o sistema precifica como um dia comum
Armazéns conhecidos por descarregar devagar Humano precisa revisar Inclua tempo de margem; o sistema só lê o compromisso

O cerne é um híbrido: primeiro o despacho automático, depois a revisão humana. O sistema atribui, o despachante passa alguns minutos por dia examinando as sinalizadas e as incomuns. Mude o que precisar mudar, ligue para quem precisar ligar. Você mantém a velocidade, e a taxa de falhas cai.

Motorista veterano conferindo o tablet de despacho de TMS na cabine, com tráfego na rodovia à frente

Quatro conselhos diretos para embarcadores e armazéns

Primeiro, antes de o sistema entrar no ar, alimente-o com o que a estrada já sabe. Estradas restritas, hábitos de descarga dos armazéns, gargalos da alta temporada. Se esses dados nunca entrarem, o despacho automático de TMS é só palpite. Sente-se com seus motoristas e despachantes mais antigos, transforme essa experiência em dados, e só então o sistema estará de fato na estrada.

Segundo, mantenha uma etapa de revisão humana depois do despacho automático. Você não precisa revisar cada carga. Defina alguns gatilhos: transportadoras novas, cargas estranhas, zonas restritas, alta temporada. Um despachante dar uma olhada nisso leva um minuto. O que isso economiza pode ser um dia inteiro arruinado.

Terceiro, dê aos motoristas uma forma de reportar. Um motorista na estrada encontra uma rota ruim ou um armazém lento. Ele consegue sinalizar isso de volta ao sistema com um toque? Se sim, os dados ficam mais inteligentes a cada milha. Se não, o sistema enviará os motoristas para a mesma vala cem vezes.

Quarto, pare de avaliar só pela velocidade do despacho. Avalie por despachar certo da primeira vez. Alguns embarcadores pontuam suas equipes de despacho por quantos minutos passam entre o pedido e a atribuição. Essa métrica empurra todo mundo para a automação total sem revisão. O que você realmente deve observar é a taxa de pontualidade, a taxa de exceções e se os motoristas realmente querem suas cargas. Os motoristas votam com suas rodas, e esse voto é mais honesto do que qualquer métrica.

Digo a vocês: a tecnologia é uma coisa boa. O despacho automático de TMS tornou o despacho mais rápido e reduziu as milhas vazias. Mas o transporte rodoviário continua sendo pessoas dirigindo. Nenhum sistema jamais comerá aquela refeição quente pelo motorista, nem reconhecerá qual estrada está em obras. O melhor despacho é cálculo rápido mais um olhar humano atento. Há um velho ditado: afiar o machado não atrasa o corte. Os poucos minutos gastos na revisão humana pouparão cada dor de cabeça que espera mais adiante na estrada.

Por Shifu Zhao, Veterano do transporte rodoviário (15 anos)

Traduzido do inglês. Em caso de divergência, prevalece a versão em inglês.